CFP publicou Nota Técnica sobre Acompanhamento Terapêutico
O Conselho Federal de Psicologia publicou a Nota Técnica nº 44/2025, documento que estabelece diretrizes éticas, técnicas e profissionais para a atuação da Psicologia no Acompanhamento Terapêutico (AT).
A normativa surge em um momento de crescimento da demanda por intervenções territoriais em saúde mental e reforça o compromisso da Psicologia brasileira com o cuidado em liberdade, a autonomia e a inclusão social.
A publicação representa um marco importante para psicólogas e psicólogos que atuam em contextos clínicos, comunitários, escolares, hospitalares e psicossociais, especialmente dentro da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e das políticas públicas de saúde mental.
Neste artigo, você entenderá:
- O que é Acompanhamento Terapêutico (AT).
- O que diz a Nota Técnica nº 44/2025.
- Quais são os fundamentos éticos da prática.
- Como o CFP define os limites e responsabilidades do AT.
- Quais desafios clínicos e profissionais envolvem essa atuação.
O que é Acompanhamento Terapêutico (AT)?
O Acompanhamento Terapêutico é uma modalidade de cuidado em saúde mental realizada nos espaços reais da vida cotidiana da pessoa acompanhada.
Diferentemente do modelo tradicional de clínica em consultório, o AT acontece em territórios como:
- Casa.
- Escola.
- Universidade.
- Trabalho.
- Transporte público.
- Serviços de saúde.
- Espaços culturais.
- Comunidade.
A Nota Técnica define o AT como uma “clínica sem muros”, voltada para promoção de autonomia, circulação social, fortalecimento de vínculos e participação comunitária.
Historicamente, o Acompanhamento Terapêutico possui forte relação com a Reforma Psiquiátrica Brasileira e com o movimento antimanicomial, defendendo práticas de cuidado em liberdade e substituição da lógica asilar.
Qual o objetivo da Nota Técnica nº 44/2025?
Segundo o CFP, o documento foi elaborado diante do aumento da procura por profissionais que atuam como acompanhantes terapêuticos e da necessidade de estabelecer referências éticas e técnicas mais claras para a categoria profissional.
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A Nota Técnica busca:
- Fortalecer o rigor técnico e ético do AT.
- Orientar psicólogas(os) sobre limites e responsabilidades.
- Evitar práticas tutelares ou abusivas.
- Garantir alinhamento com o Código de Ética Profissional.
- Promover cuidado baseado em direitos humanos.
- Reforçar a atuação interdisciplinar em saúde mental.
O Acompanhamento Terapêutico é uma profissão?
Um dos pontos mais relevantes do documento é a afirmação de que o Acompanhamento Terapêutico não constitui uma profissão independente.
O CFP esclarece que o AT é uma função exercida por diferentes profissionais da saúde, incluindo psicólogas(os), desde que haja qualificação técnica adequada e atuação ética compatível com sua formação profissional.
No caso da Psicologia, o exercício do AT deve respeitar:
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- O Código de Ética Profissional do Psicólogo.
- As normativas do Sistema Conselhos.
- As políticas públicas de saúde.
- Os princípios do SUS.
- A legislação profissional vigente.
Fundamentos éticos do Acompanhamento Terapêutico
A Nota Técnica nº 44/2025 enfatiza que o trabalho do acompanhante terapêutico exige alta complexidade clínica, ética e relacional.
Entre os principais fundamentos éticos destacados pelo CFP estão:
Respeito à autonomia
A pessoa acompanhada deve participar ativamente das decisões relacionadas ao seu cuidado. O AT não deve reproduzir práticas de controle, tutela ou infantilização.
Promoção do cuidado em liberdade
O documento reafirma os princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira, valorizando estratégias de desinstitucionalização e inclusão social.
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Sigilo profissional
Mesmo em espaços públicos ou comunitários, o profissional deve preservar confidencialidade, privacidade e proteção das informações da pessoa acompanhada.
Postura antidiscriminatória
A Nota Técnica destaca a importância de considerar vulnerabilidades sociais, raciais, econômicas, de gênero e outras interseccionalidades presentes no cotidiano clínico.
Quais atividades podem ser realizadas no Acompanhamento Terapêutico?
O CFP descreve diversas possibilidades de atuação da Psicologia no AT, incluindo:
Construção de vínculo terapêutico
O vínculo é compreendido como instrumento clínico central para favorecer segurança emocional, autonomia e fortalecimento subjetivo.
Manejo de crises no território
O acompanhante terapêutico pode atuar em situações de sofrimento psíquico intenso fora do consultório, respeitando critérios éticos e técnicos.
Mediação social e comunitária
O trabalho pode envolver facilitação de relações familiares, escolares, profissionais e comunitárias.
Articulação intersetorial
O AT frequentemente exige diálogo com:
- Saúde.
- Educação.
- Assistência social.
- Justiça.
- Cultura.
- Rede de apoio familiar e comunitária.
Incentivo à participação social
O acompanhamento busca ampliar circulação social, pertencimento e acesso a direitos.
A importância do Projeto Terapêutico Singular (PTS)
A Nota Técnica reforça que a atuação no AT deve estar integrada ao Projeto Terapêutico Singular (PTS), especialmente em serviços públicos e contextos multiprofissionais.
O PTS é construído coletivamente e considera:
- Necessidades da pessoa acompanhada.
- Objetivos terapêuticos.
- Rede de apoio.
- Recursos do território.
- Estratégias de cuidado interdisciplinar.
Esse alinhamento evita práticas isoladas e fortalece a continuidade do cuidado em saúde mental.
Principais desafios éticos no Acompanhamento Terapêutico
O CFP também alerta para riscos e desafios frequentes na prática do AT.
Limites no vínculo terapêutico
Por ocorrer em espaços cotidianos, o AT pode gerar confusão entre relação terapêutica e amizade. O profissional deve manter clareza técnica e ética sobre sua função.
Atuação em vulnerabilidade social
O acompanhante terapêutico frequentemente encontra contextos marcados por pobreza, violência, exclusão e precarização de serviços públicos.
Isso exige:
- Sensibilidade clínica.
- Postura ética.
- Trabalho em rede.
- Conhecimento das políticas públicas.
Segurança e manejo de situações complexas
A atuação em ambientes abertos pode envolver riscos imprevisíveis, exigindo preparo técnico e supervisão constante.
Necessidade de formação continuada
O CFP enfatiza que o AT requer supervisão clínica, estudo permanente e qualificação específica.
O Acompanhamento Terapêutico está crescendo no Brasil
Nos últimos anos, o AT tem ampliado sua presença em diferentes contextos:
- Saúde mental.
- TEA (Transtorno do Espectro Autista).
- Reabilitação psicossocial.
- Dependência química.
- Infância e adolescência.
- Inclusão escolar.
- Saúde coletiva.
- Geriatria.
- Situações de crise e vulnerabilidade social.
Esse crescimento também aumentou debates sobre formação, regulamentação, qualidade técnica e identidade profissional da prática.
Qual a importância dessa Nota Técnica para psicólogas(os)?
A Nota Técnica nº 44/2025 fortalece o reconhecimento institucional do Acompanhamento Terapêutico dentro da Psicologia brasileira.
Entre seus principais impactos estão:
- Maior segurança ética e técnica.
- Orientação para atuação profissional.
- Fortalecimento do cuidado em liberdade.
- Referência para supervisões e formação.
- Apoio à prática interdisciplinar.
- Proteção da população atendida.
Além disso, o documento ajuda a diferenciar práticas fundamentadas cientificamente de intervenções improvisadas ou sem respaldo ético.
Considerações finais
A publicação da Nota Técnica nº 44/2025 pelo CFP representa um avanço importante para a Psicologia brasileira e para o campo do Acompanhamento Terapêutico.
Ao reconhecer o AT como dispositivo clínico-político de cuidado territorial, o documento reafirma princípios fundamentais da Reforma Psiquiátrica, dos direitos humanos e da saúde mental comunitária.
Mais do que uma orientação burocrática, a normativa fortalece uma prática clínica comprometida com autonomia, inclusão social, singularidade e cuidado em liberdade.
Para psicólogas(os), o documento também reforça a necessidade de formação contínua, supervisão qualificada e atuação ética diante da crescente complexidade das demandas contemporâneas em saúde mental.
Referências
- Conselho Federal de Psicologia. Nota Técnica CFP nº 44/2025 – A prática profissional da Psicologia no Acompanhamento Terapêutico.
- Código de Ética Profissional do Psicólogo.
- Política Nacional de Saúde Mental.
- Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
- Reforma Psiquiátrica Brasileira.
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